sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Bouncer

ERA 1986 e eu morava em Londres. 
A vida era dura, mas boa. Morava num “bedsit”, junto com meu namorado brasileiro, estudava inglês e trabalhava como diarista e baby sitter. Sim, diarista. 
Era uma excelente baby sitter e uma faxineira esforçada, mas sem jeito.
Os Packman

Entre os meus clientes havia um casal muito simpático – os Packman. Eles moravam numa bela casa em Hampstead, tinha um filhinho de dois anos – David – e um cachorro de dez, o Bouncer. 
Todas as terças-feiras eu pegava minha bike e chegava lá na hora em que Mrs. Packman e David estavam terminando seu café da manhã e Mr. Packman chegava de sua volta com Bouncer.
Na sequência, ele se preparava para sair. Beijava a mulher, o filho, acenava para mim e, invariavelmente, antes de fechar a porta, vira-se para o cão e dizia “bye bye, Bouncer, see you later!” ao que o animal respondia com um aceno de rabo e um latido.
Uma meia hora depois Mrs. Packman e David também saiam e eu ficava na casa às voltas com louça, roupas, vasos, pias, chãos e móveis pra cuidar. E com Bouncer.
O cão e o aspirador

Ele era um basset hound – aquela raça que arrasta orelhas pelo chão e –, pelo que poderia ser observado nos porta-retratos da sala, fazia parte da família desde antes do casamento, pois numa das fotos, ele está posando à frente dos noivos, com uma cartola e uma gravata-borboleta semelhante à de Mr. Packman.
Os “bouncers” são seguranças de casas noturnas. Mas Bouncer não me parecia um segurança muito respeitável.
Quando os Packman saiam, eu vestia as luvas de borracha, sintonizava o rádio na BBC e começava minha labuta. Bouncer me acompanhava silenciosamente, vigiando meus passos. Seu ponto fraco era o hoover – aquele aspirador de pó em pé, que aparecia em desenhos animados dos anos 70. Era só eu ligar o eletrodoméstico que ele se arrepiava e começava a latir. E não parava até que desligasse. Não me deixava em paz. Aliás, não deixava o hoover em paz. Conforme eu avançava e recuava, aspirando o pó do carpete, ele também avançava e recuava, como se duelasse. Acho que ele tinha medo que aspirasse suas orelhas que arrastavam pelo chão. Este era nosso único momento de tensão. De resto, nos dávamos muito bem.
Encanadores

Um dia, antes de sair, Mrs. Packman me avisou que havia contratado uma equipe de encanadores para resolver um problema de cano quebrado no jardim. E, de fato, uma hora depois de todos saírem, os encanadores chegaram.
Deixei-os no jardim e subi para passar roupa. Bouncer seguiu para o jardim com eles.
Um tempo depois, desci para aspirar o pó. Esperei Bouncer aparecer para começarmos nossa batalha. Liguei o aparelho, comecei o serviço, mas nada do cão aparecer. Estranhei. Fui até o jardim na parte de trás da casa, onde os homens trabalhavam. Não estava à vista. “Did you see the dog?” perguntei aos encanadores. Eles me olharam de volta, com cara de “que dog?”
Sumiço

Comecei a chama-lo. Fui pra sala e então notei que a porta da rua estava aberta. Provavelmente um dos encanadores tinha ido à van buscar alguma coisa e tinha esquecido de fechar. Gelei.
Comecei a gritar “Bouncer, Bouncer!” cada vez mais alto. Nada.
Saí pela rua gritando. Na minha cabeça já estava imaginando a cena. Como eu iria comunicar aos Packman o desaparecimento do ente querido. Cogitei pegar minha bicicleta e desaparecer. Nunca mais voltar. Eles não sabiam onde eu morava, na época não existia nem Facebook, nem celular... Não seria fácil eles me encontrarem. 
Continuei descendo a rua e gritando. Não. Não fugiria. Eu poderia culpar os encanadores. Até porque eles eram mesmo culpados. Ainda assim, teria que dar a notícia. Não ia ser fácil.
Quatro quarteirões adiante, quando já estava me conformando com minha sina, avistei Bouncer num jardim, cercado de flores e tentado montar num(a) galgo. Toquei a campainha da casa e, muito sem jeito, expliquei à senhora que atendeu o que estava acontecendo. Ela apressou-se em espantar o intruso dali, antes que houvesse chance de ocorrer uma mistura de raças. 
Peguei o bicho no colo – ele era bem pesado – e fui levando de volta à casa.
Certifiquei-me de que a porta estava bem fechada e fui buscar o hoover para duelarmos. 
Aguardei os encanadores irem embora para poder trancar a porta, deixar a chave no lugar combinado e ir embora.
Silêncio



Nunca contei aos Packman o ocorrido.
Trabalhei mais alguns meses ali. Voltei pro Brasil. 
Mas, até hoje, ainda lembro de Mr. Packman – “By bye Bouncer, see you later!”

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Sem regras

Tenho 52 anos.
Menstruei pela primeira vez aos treze. Estava ansiosa para que isso acontecesse. É um marco para o qual fui devidamente preparada por minha mãe, minhas tias, minha avó, minhas amigas mais velhas. E também por propagandas de absorventes.
Desde então, minha vida passou a ser regrada. Todo o mês sangue, todo o mês um pouquinho de cólicas, todo mês um novo ciclo. Junto com a lua, ou quase. Um atraso poderia causar pânico. Ou, mais tarde, criar expectativa.
Três vezes a menstruação não veio. Três vezes eu estava grávida. E a gravidez é um outro ciclo, com mais luas, mas também um ciclo de fases, que termina lindamente.
Então vem o puerpério – uma fase sem regras – que também pode ser muito difícil para as mulheres, e sobre a qual também pouco se fala. Não combina com a idealização da maternidade o desejo de atirar a própria cria contra a parede ou de se lançar pela janela do apartamento.
Não fui pega pela depressão pós-parto. Dei sorte. Hoje, ingressando na menopausa, me pergunto se não haverá semelhanças entre esses períodos em que não temos regras.
A diferença é que se, por um lado, agora não tem nenê, por outro, não tem volta. As regras não voltarão.
TPM, leve dor de cabeça, palidez, cólicas (ou não). O sangue vinha e levava o mau-humor, a dor de cabeça e, mais um dia, também se iam as cólicas. Alívio, distensão. Dali duas semanas, muitas vezes, sentia a ovulação. Com ela, picos de libido e de energia. Passados mais uns dias, tudo recomeçava. Durante 40 anos.
A gente é preparada para “virar mocinha”. Para a gravidez. Para o parto. Para cuidar do bebê. Para amamentar.  Mas não para deixar de ser fértil.
Está difícil não ter mais regras, não ter mais ciclo, não ter mais sangue mensalmente.
O sangue vem e vai, desordenado. Hora em gotas de ferrugem, que pingam como uma torneira defeituosa, hora como um tsunami vermelho vivo, sem aviso, e pode me inundar no meio de uma reunião, num restaurante, me obrigando a pedir desculpas para correr ao banheiro e perceber que será preciso comprar uma calça e jogar a calcinha no lixo.
Não é mais T-P-M. É só T. Uma gigantesca T. Que não tem dia para chegar. Que não tem dia pra ir embora. Que vem de supetão, nas mais variadas formas de catástrofe mental.
Os gêmeos AINDA não chegaram da escola? Deviam ter chegado há 10 minutos! 10 minutos! Morreram. Foram atropelados. Foram sequestrados. Sou péssima mãe. Sou uma idiota. Estou velha. E feia. Horrível. Nada do que faço é bom. Abandonei meus amigos. Não sei mais ser amiga. Não sei mais ser filha. As pessoas são TÃO irritantes. Essa pentelha viu a mensagem e não me responde. Responde! Responde! Respondeee, caralho. Por que o telefone está tocando? Quem é o pentelho? Por que a gaveta não fecha? Por que essa PORRA DE GAVETA NÃO FECHA? Por que eu inventei de fazer faculdade? Não vou conseguir terminar. Não vou passar na OAB. Onde está minha chave de casa? Por que, meu Deus, porque eu não deixo a chave no mesmo lugar?  Eu não devia estar aqui correndo, eu devia estar estudando. Eu não devia estar estudando, eu devia estar lendo aquele relatório. Eu não devia estar lendo este relatório, eu devia estar com meus filhos. Eu não devia estar com meus filhos, eu devia ir visitar meus pais.  Minha irmã. Ir no supermercado. Passar mais tempo com meu marido. Marido. Eu vou esfaquear o marido. Ele ronca de propósito pra não me deixar dormir! Isso não vai dar certo. Aquilo também não vai dar certo. Aquilo outro? Vai dar errado.   Onde deixei os meus óculos? Por que, meu Deus, eu não guardo os óculos? Justo hoje, justo hoje tinha que acabar a luz? Tinha que acabar o gás no meio do meu banho? O avião vai cair. É claro que vai cair. Vou morrer. Acabou. Cadê a minha blusa vermelha? Cadê minha blusa vermelha? Por que quando eu teclo cadê, escreve cad~e?? Saco. Saco de teclado. Quem tirou minha caneta daqui?  Quem comeu a última fatia do MEU pão? Não vou dar conta. Não vou dar conta. De fazer. De pagar. De entregar. De educar. De estudar.  De viver.
Acordo e estou diante de um abismo.
No meio do dia, sinto que sou capaz de provocar tremores se pisar com um pouco mais de força.
Ao entardecer, não tenho forças.
Deito e me vejo no meio de um ciclone.
Ou acordo no meio de um ciclone.
No meio-dia estou diante de um abismo.
Ao entardecer provoco tremores.
À noite não tenho forças.
Ou. Não sei. Não tem ordem certa. Não tem regras. Pode ser um dia assim. E outro normal. E outro dia assim. Podem ser dez dias assim. Dez dias assim.

E não adianta você saber que são os hormônios. 

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Você conhece o Kevin Johansen?


Nunca ouviu nada dele? Pre-ci-sa ouvir.
É o melhor compositor e intérprete da atualidade. E olha que nunca fui muito chegada em música cantada em castelhano. Não, ele não é espanhol, é argentino. Na verdade, é americano, nascido no Alaska. O pai é americano, a mãe, argentina. Ele em canta em inglês também. Algumas vezes mistura as duas línguas.
O gênero? Hummmm. Difícil responder. Uma vez, um jornalista perguntou como ele definiria seu gênero musical já que transita por diferentes ritmos, línguas e culturas. Ele respondeu, sem pestanejar “yo soy um degenerado”.
Meu degenerado favorito vai do country (Susan Surrender) ao calypso (Apocalypso), da ciranda (el Círculo) à procissão (La Procesión), do rock (McGuevara O Chedonalds,)  à cumbia (Cumbiera intelectual), passando pela balada romântica (mas jamais melosa, como Te quiero), pelo blues (Down with my baby), bossa nova (You are the Bossa), tango (La Tangómana), indígena da América do Norte (Whyoh), música dos pampas (Vecino), milonga (Milonga que pasó)... E essa é só uma brevíssima amostra.
Eu e ele
Mas aí é que está. Mesmo que você identifique o gênero, ele dá um jeito de transgredir – seja com uma letra absolutamente inusitada, com as mudanças de uma língua para outra ou com a participação de algum convidado especial.  Se você quer colocá-lo numa caixinha, esquece.
Degenerado e inclassificável.
Meu inclassificável favorito tem uma habilidade toda sua pra jogar com as palavras, pra combinar e misturar o inglês, com espanhol (ou “estranhol”, como ele mesmo diz) e ainda, de vez em quando, colocar umas pitadas do nosso português com seu delicioso sotaque. Pra se ter uma ideia, a banda, que o acompanha há anos, chama The Nada, seu mais recente álbum "Mis Americas".
Não bastasse compor com poesia e originalidade, interpretar com voz terna e grave, ele ainda tem o atrevimento de recriar canções – pois não dá pra dizer que são só versões. E suas escolhas são inusitadas: “Hotel California” do Eagles, “Modern Love”, do David Bowie e “La Chanson de Prevért”, de Serge Gainsbourg – sim, ele canta também em francês,  “Since I Don't Have You”, dos Skyliners e até Beatles, com “We can work it out” e Culture Club em “Karma Kamaleon”(essas, só em vídeo).
É música pra ouvir e dançar, pra ouvir e cantar junto, pra ouvir e se emocionar, pra ouvir e rir, pra ouvir e pensar, pra ouvir e ouvir e ouvir e ouvir e ouvir.
Ouça. Tem tudo no Deezer. Deve ter no Spotify.
E veja. Tem muitos vídeos no youtube. Ainda por cima, ele é lindo.

Depois que você ouvir, eu conto do show. 

domingo, 17 de janeiro de 2016

Breve história de Estrela

Era uma trans que estava sempre no Pão de Açúcar do Pacaembu. Magra, forte e simpática, me ajudava quando via que eu estava em apuros pra colocar as compras no carro, já que o carrinho fica escapando da gente no estacionamento de piso inclinado. Na primeira vez que isso aconteceu, agradeci e perguntei seu nome. Ela respondeu um nome qualquer de homem mas insisti: "como você GOSTA de ser chamada?" E ela, de olhos arregalados e sorriso discreto, apresentou-se: "Eu gosto de ser chamada de Estrela".
Desde então, toda vez que nos encontramos, a cumprimentei pelo nome. Uma vez ela pediu que comprasse um caixa de bombons para crianças que ela iria visitar. Ela não mendigava. Pedia olhando nos olhos, sorrindo, sem intimar, sem implorar. Gostei dela. Estava sempre ajudando as velhinhas do Pacaembu com suas compras, gentil e sorridente, sem histrionismo.

No final do ano, disse a ela que minha situação financeira não estava muito boa e que não poderia ajudá-la. Ela perguntou se eu teria algumas roupas usadas minhas pra lhe dar. Prometi que levaria no começo do ano.
Voltando de Ibiuna, antes de ir pra praia, separei as roupas, escolhendo com carinho modelitos que achei que ela iria gostar.
Passei duas vezes pelo supermercado mas não a vi.
Na segunda vez perguntei ao manobrista - que ficou surpreso pelo fato de eu me interessar por ela - mas ele não a via fazia uns três ou quatro dias. Como era logo depois do réveillon, talvez ela tivesse conseguido um dinheirinho pra visitar alguém. Deixei as roupas no carro.
Semana passada, nas duas vezes que passei por lá, não a vi.
Agora meu filho voltou do supermercado e me deu a notícia. "Mataram a Estrela".
Não tenho nem vontade de saber os detalhes. Posso imaginar e já é triste e chocante o suficiente.
Não saiu nos jornais. Não é notícia. É normal.
Estou de coração apertado por essa estrela de vida meteórica. Certamente vítima da pobreza e do preconceito. Choro por não ter entregue as roupas pra ela, por não ter me despedido, por não saber se alguém a pranteou, por não saber se foi enterrada como Estrela.

domingo, 16 de agosto de 2015

Daiane

Ontem à noite fui ao shopping. Detesto shopping. Ainda mais sábado à noite. Mas precisava comprar um presente para uma amiga que faz aniversário hoje e não tinha muitas opções àquelas alturas do final de semana.
Para não ter estresse com trânsito, briga por vaga e custo do estacionamento, decidi ir de bike. A noite estava propícia - fresca e seca. E o Higienópolis tem bicicletário.
Estacionei a bike e fui em busca de uma loja de lingerie. Meu estilo biker - cara limpa, cabelo curto e despenteado. camiseta regata, calça jeans velha, tênis, mochila nas costas com capacete pendurado contrastava com as mulheres ultra maquiadas, cobertas de grifes, que olhavam seus filhos e o resto do mundo do alto de seus saltos finos e por trás de suas louras franjas.
Uma loja com o sugestivo nome de intimissi (ou algo próximo disso) anunciava descontos de até 70% em suas rendadas mercadorias.
Entrei pra checar. Havia mais umas três freguesas, todas sendo atendidas por vendedoras solícitas. A loja esvaziou e nenhuma das vendedoras solícitas veio até mim perguntar o que eu queria.
Apesar de o preço estar realmente convidativo, não achei nada que combinasse com minha amiga. E, como não houve interesse de ninguém em talvez me ajudar a achar algo, virei as costas e fui embora.
Fui então à Jogê, onde imediatamente fui atendida por uma vendedora atenciosa, bem humorada, com um delicioso sotaque nordestino. Resolvi o assunto com um presente alegre que, imagino, alegrará minha amiga querida. Agradeci a ajuda eficiente e prestativa - na frente da gerente da loja.
Então decidi comprar um presente para o Theo.
Desci até a Centauro. Sabia o que queria comprar: uma bermuda para ele poder treinar musculação.
Logo que entrei na loja, Damiana se apresentou. Não gosto muito dessas lojas grandes, justamente porque os vendedores nunca estão por perto e, quando estão, geralmente atendem de má vontade.
Mas Damiana passeou comigo pela loja, mostrando as opções e sendo absolutamente sincera. "Nike, não. Muito caro e não é tão bom. Dá uma olhada neste aqui - é marca boa, e está em oferta porque é da coleção antiga." E assim, achei o que queria e ainda escolhi um short pra ele jogar bola também. Ela perguntou "não vai levar mais nada?", respondi que não dava, que compro uma vez pra cada filho e que não posso comprar muito pra cada um porque são muitos filhos.
Aí confessei pra ela "O meu mais velho merece. Ele trabalhou duro hoje. Ele está se esforçando. Ele merece." Meus olhos marejaram. E os dela também. "Eu sei", ela disse, "tenho um de dois anos, ele está na Bahia com a minha mãe". E sua voz embargou. Murmurou "sinto tanta falta dele..."
E como meu olhar a interrogasse, ela continuou "o meu marido, pai dele, está internado porque tem problema com drogas e eu não consigo dar conta sozinha".
E contou como se conheceram e como ele estava limpo há quatro anos mas depois foi seduzido de novo. E ela está sem o marido e sem o filho. A essas alturas estamos as duas chorando. E eu nem sequer sei o seu nome. Pergunto. Ela vira o crachá "Damiana". "Feminino de Damião, bonito!", comento. "Não gosto", responde ela, "prefiro que me chamem de Daiane". "Como a princesa?", pergunto. "Não. Como a ginasta". 
Então nos despedimos, com uma abraço forte e a promessa de que tudo vai dar certo. Pra ela. Pra mim. 
 

terça-feira, 5 de maio de 2015

Nariz

Chamou as duas filhas, sentou-as à sua frente. Mais séria do que de costume, procurava as palavras.
- A Catarina, minha chefe, vem jantar aqui hoje.
As meninas esperam que a mãe prossiga.
- É muito importante que vocês se comportem.
Elas se entreolham. Que conversa era aquela?
- É que... é que ela tem uma coisa que...
A mais velha rompe o silêncio:
- Ela é “portadora de deficiência”?
- Não! –responde categórica.
Dá um suspiro. Desabafa:
- Ela tem um nariz enorme. Gigantesco.
A dupla cai na gargalhada. A menor:
- Que nem o do Pinóquio?
Ela relaxa.
- Na verdade parece um tubarão!
Gargalhadas de novo.
Fica séria.
- Mas vocês não podem falar isso pra ela. Não podem nem falar sobre o nariz dela uma com a outra quando ela estiver aqui.  Não podem ficar olhando pro nariz. Entenderam?
- Mas e se a gente rir?
- Eu mato vocês!
Sabem que é brincadeira. Mas ela baixa a voz e sussurra:
- Não façam isso. Eu preciso muito deste trabalho. Vocês sabem. Mas ela cismou de vir aqui. Quer conhecer vocês. Ela chegou do sul faz pouco tempo... sei lá. É importante pra mim que tudo saia bem.  Vocês têm que fazer de conta que aquele nariz é a coisa mais normal do mundo. Nem dar bola pra ele. Posso contar com vocês?
As duas, lisonjeadas com tanta responsabilidade, balançam afirmativamente.

***
A cozinheira também é avisada. Além de preparar sua especialidade, não deve ficar encarando o nariz da chefe.
As meninas já estão de banho tomado, penteadas, vestidas com as melhores roupas.
A mãe anda de um lado pro outro, experimentando as panelas e trocando os arranjos de flores de lugar.
A campainha toca.
O nariz chega.
É fenomenal.
Mas as meninas ficam impávidas. Seguem à risca as orientações da mãe.
A mãe não tira as meninas do radar.
Quando a convidada leva o copo à boca, há um instante de tensão. A boca do copo é estreita. Será que ela vai conseguir? Será que as meninas vão aguentar ficar quietas?
O nariz quase entala, mas, sua dona, já acostumada com tais situações, sabe qual o ângulo de aproximação exato para evitar incidentes.
Chega a sobremesa. As meninas estão cansadas. Pedem licença para ir dormir.
A dona do nariz comenta como as meninas são educadas. A mãe, discretamente, respira aliviada.
Vai até a cozinha. Seus passos estão leves.
Volta com a bandeja de café. Coloca sobre a mesa e pergunta, sorridente:

- Aceita um narizinho?

Quem procura... acha? Ou o Y e a perna faltante

Será que o Y é manco, como diz minha amiga Thelma? Que costela de Adão que nada. No processo de criação, Deus se distraiu e, num acidente cortou aquela perninha.  Mas é justo nela que deve estar a porção de DNA correspondente à capacidade de procurar as coisas. Ou vai ver que o Y é míope de nascença. Não que não saiba procurar, simplesmente não enxerga.
Exemplo?
1.
XY:  Cadê a tesoura grande?
XX: Está na segunda gaveta da cozinha.
(Barulho de gaveta sendo aberta).
XY: Em que lugar? (estamos falando de UMA GAVETA, não de um armário)
XX: Do lado esquerdo.
XY: Não tá aqui! (Note bem: a frase é "Não está aqui" e não "Não estou encontrando")
E lá vai XX. Abre a gaveta, tira um guardanapo de cima, e lá esta ela, a tesoura. E não é pequena.
XY: Ah, mas você não falou que tinha um guardanapo em cima.
2.
XX: Me faz um favor? Já que vai subir, pega os meus óculos que estão em cima da cama?
XY: Claro!  (os XY são, geralmente, muito atenciosos)
Dez segundos depois...
XY: XXiiiisssss! Não está aqui! (Note bem: a frase é "Não está aqui" e não "Não estou encontrando")
XX sobe as escadas vai até o quarto. Em cima da cama, há um objeto preto, uma caixinha. De óculos. XX pega e olha para XY. XY responde ao olhar, indignado: ah mas você não disse que estava no estojo.

3.
Sábado eu estava com dor no meu ombro operado, deitada no sofá da sala, assistindo a um filme. Roi (meu marido e notório XY) perguntou se eu queria um remédio.
Eu: Sim, por favor! Traga a cartela de comprimidos que está no meu criado-mudo. Tem duas pilhas de livros, está em cima da pilha da esquerda. Não está nas gavetas. (Eu sabia que se estivesse nas  gavetas, o manquinho não iria encontrar nunca).
Quinze segundos depois....
XY: Claaau, não tá aqui! (Note bem, mais uma vez: a fase é "Não está aqui" e não "Não estou encontrando").
Visto a tipóia e subo. Adivinha? Está lá. Na pilha da direita? Não. Dentro da gaveta? Não. Caída, atrás do criado-mudo? Não!!! Na pilha da esquerda? Sim!!! Mas então, está embaixo da pilha? Não!! Entre os livros? Nãããão! Está em cima da pilha, com um pequeno sachê cobrindo metade da cartela.
XY: Ah, mas estava escondido!

***
Além disso, suponho também que esteja na tal perninha faltante a capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo e, certamente, uma porção da memória de curto prazo.

No domingo, nosso filho Martim tinha um jogo de futsal importantíssimo. Ele é goleiro e costuma fazer a diferença. A partida é no fim do mundo, dobrando a esquina.
Vamos todos assistir.
O técnico, ao ver o Martim, respira aliviado. Então faz a pergunta fatal: trouxe o RG?
Martim olha, aflito, pra mim. Eu olho com poucas esperanças para XY, digo, Roi. Ele não tem pra quem olhar. Não trouxe. Não leu o email até o fim, onde estava escrito "Levar o RG". Ele tenta se justificar, mas não há tempo a perder.
XY, digo, Roi: Vou lá buscar.
Eu: Ok. Seja rápido.
Roi: Onde está o RG?
Eu: Dentro da primeira gaveta do meu escritório, ao lado do computador.
Antes que ele pergunte "onde", sugiro: "Porque você não traz a gaveta? Assim não tem perigo de não encontrar!"
E estava falando sério.
Ele sai apressado.
A partida que antecedia o jogo de Martim, termina. Nada de ele chegar.
Os meninos aquecem, o técnico tenta negociar com a arbitragem. Nada feito.
Meu celular toca. É XY.
"Clau, a chave de casa está com você?"

Jalapaixão - 2ª parte


A noite cai. Não. Ali, a noite despenca. Do céu colorido à escuridão total, passam-se poucos minutos. Minutos nos quais a metamorfose das cores e luzes parece o trabalho de um artista temperamental, que, indeciso, não sabe que tons usar. Uma leve brisa sopra e o calor se esvai, deixando uma temperatura amena e agradável.

Durante o jantar, servido mais uma vez embaixo da mangueira, a turma começa a relaxar. Banho frio, cerveja gelada, petiscos saudáveis e saborosos, fazem a conversa fluir.  Os meninos já brincam juntos. Os adultos, pouco a pouco, vão se apresentado. As caras vão ganhando nomes, lugar de origem e ocupação. Os guias, bem humorados, também colaboram pra que o ajuntamento de pessoas passe a formar um grupo: conversam, fazem brincadeiras, contam causos.

Hora de dormir.  A cama de sleeping, com colchão inflável, é surpreendentemente confortável. Meus vizinhos roncam. Uma gata no cio atormenta outros gatos. Galos, boêmios, resolvem cantar. Mesmo assim, levanto antes do sol e não me sinto cansada. Quando começa a clarear, saio para uma corrida.

Encontro Julio,  voltando de uma caminhada na escuridão. Carlão, também acordado, está a postos com sua supercâmera sobre um tripé, para flagrar o nascer do sol.  

A estrada é basicamente plana, de terra basicamente dura. O combinado é que eu não saia da fazenda. André, um dos guias, me pediu que não saísse por medidas de segurança.  Vai que encontro uma onça encerrando o expediente... Meu sprint não é tão bom assim.

Desencano do Ipod e corro ao som do Jalapão. As aves saúdam o sol que desponta. E imediatamente manda o friozinho pra longe.

Rio do Sono
A próxima atração, é o Rio do Sono. Nosso primeiro encontro com as águas jalapenses. Cristalina, fria, mas não gelada, com uma correnteza que não deixa nem o mais intrépido dos nadadores do grupo vencerem-na. E olha que tentamos. Apostei uma cerveja com o Décio que chegaria até a ponte,  mas não fui capaz.

Os meninos fazem castelos de areia. A areia é fina, como as mais finas areias das praias costeiras. 
Deixamos o Rio do Sono acordados, revigorados e prontos para mais kms de terra sob o sol.

No meio do caminho, tem uma Catedral, e em frente a ela, o grupo fez a primeira foto coletiva. 

Na porta da igreja, ops, Serra da Catedral

Feitas as juras, seguimos para São Félix do Jalapão. 

Calor escaldante, mas o almoço foi numa choupana bem sombreada,  coberta por folhas de piaçava. Não a vassoura, mas uma palmeirinha anã que nasce feliz no cerrado.

Depois da refeição, fomos em busca de sorvete. Impossível saber as opções de sabor:

Eu (apontando para a geladeira onde um sem número de picolés de embalagens diferentes se espremem, um colado ao outro): 
- De palito, tem de que?
A dona da sorveteria: 
- Picolé...
Aponto então para os potes de massa:
- E de massa...?
A dona da sorveteria:
- É sorvete...

Desisto de escolher. Pego o primeiro que aparece. 

O ponto alto do dia é a Cachoeira da Formiga. Ali, em suas águas turquesas, os que ainda resistiam aos encantos do Jalapão, acabam por se entregar.



Deixamos a água bater forte nas costas, submergimos abaixo da correnteza, competimos para ver quem consegue ir e vir por baixo d'água, deixamo-nos arrastar pelas águas. 
O Jalapão nos envolve, nos refresca, nos diverte. 


Jalapaixão - 1ª parte


Há momentos que você sabe que está vivendo algo especial. Sabe que não irá esquecer. Que vai ter saudades e vontade de rebobinar a fita pra revivê-lo. Alguns são extremamente rápidos e delimitados:  o nascimento de um filho, por exemplo. O instante em que, pela primeira vez, você olha dentro dos olhos daquele serzinho que já virou sua vida de ponta-cabeça. Ou o término de uma prova de Iron: o tapete azul, a visão do pórtico de chegada, o fim. Outras ocasiões, podem não ser tão bem delimitadas, mas também trazem uma carga de emoções profundas. O início de uma paixão ou, como foi nosso caso recentemente, uma viagem.
Estou ainda sob o impacto da experiência. Portanto, este não será um post imparcial, isento, objetivo. Pelo contrário, espero relatar a viagem com cores de paixão - as mesmas, por sinal, que tingem o céu do Jalapão ao entardecer.

Não é amor a primeira vista, já que ele não facilita as coisas para o visitante. Não se entrega, não se exibe, nem busca seduzir. É seco, bruto, agreste. O desavisado, ao aproximar-se, pode ficar com a primeira impressão e desistir de seguir em frente. Melhor assim. Não é para os fracos, nem para os frescos. 

Lá fomos nós cinco: Ian, Félix e Martim - meus filhos, Roger - meu marido, e eu, numa expedição, com mais quinze aventureiros, seis guias e alguns acompanhantes, que lá estavam por razões diversas. Um grupo heterogêneo, vindo de diferentes partes do Brasil.

Os guias - Sergio, André, Paulinho, Galera, Kiko e Samir, não apenas cuidavam de nossa segurança, transporte, alimentação e acampamento mas, sobretudo, nos iniciaram nos segredos do Jalapão. Como aquele amante experiente, que conhece as curvas e os caprichos da mulher amada, foram nos levando para dentro do Jalapão. Ao mesmo tempo em que  o Jalapão entrava dentro de nós.

O Mamute
O primeiro dia, é de muito chão. Instalados no Mamute - um caminhão de bombeiro alemão adaptado para esta nova função-, sacudimos no estradão de areia vermelha por várias horas, atravessando uma paisagem estranha aos nossos olhos. Horizontes sem fim, interrompidos pelas chamadas "serras": formações altas, que se destacam do chão, cujo topo é totalmente plano. Vemos uma revoada. Parecem beija-flores, mas são gafanhotos. De vez em quando, uma concentração maior de verdes, indica a presença de água: são as veredas, os oásis do cerrado.


Nossas ocas, à sombra da mangueira
Chegamos então ao local de nosso primeiro pouso. Uma fazenda. O acampamento é montado enquanto o almoço é servido. Tanto um, quanto outro, ficam à sombra de uma enorme mangueira. André e Kiko ensinam ao grupo como montar e desmontar as barracas. Logo em seguida à  aula expositiva: aplicação prática. Meninos e homens trabalham na construção de seu lar provisório. Com a ajuda dos guias, que logo apareciam ao lado dos que estavam com dificuldades, a pequena vila foi instalada.

Ao cair da tarde, rumamos para o primeiro atrativo oficial da viagem: Serra do Gorgulho. Para o deleite de meninos (e de meninos crescidos também), fomos autorizados a subir nas costas do Mamute. O trajeto, curto, foi feito de forma lenta e segura, para não haver riscos e para que curtíssemos a paisagem.

O Gorgulho é uma formação de arenito, que irrompe do chão, vermelha e erodida.  Dali do alto, com 360 graus de horizontes, vimos o sol descer e o céu ficar da cor da terra. Ali, o Jalapão segurou a minha mão, com doçura, mas com firmeza. E seu toque me agradou.


(A expedição Jalapão foi organizada pela Venturas e Aventuras)

Rápida aventura

Este texto, escrevi sob encomenda há anos para uma publicação que nunca aconteceu. Como vocês perceberão, o narrador/protagonista não sou eu - é uma mistura de meus dois filhos mais velhos - Theo e Martim. Espero que gostem!

— Mãe, quero fazer uma corrida com você. Posso?
Fazia tempo que eu via minha mãe chegar suada e sorridente, com uma medalha pendurada no pescoço. Eram as tais provas. No começo, eu não entendia. Como assim, “prova”? Adulto também faz prova? E ainda por cima chega todo contente?
Logo saquei que eram competições de corrida o que ela chamava de provas. Fiquei impressionado porque sempre, sempre ela chegava com medalha. Ela devia ser super rápida. Ganhava todas! 
 —Todo mundo que termina a corrida, leva uma medalha, explicou.
 “Que coisa mais sem graça”, pensei. “Se todo mundo ganha, ninguém ganha, então não tem vencedores de verdade.”
Pelo menos um domingo por mês ela saía bem cedinho de casa, de shorts, boné e camiseta e um número escrito num papel que ia preso por cima da roupa. Voltava perto da hora do almoço. 
Aquilo começou a me intrigar. Devia ter alguma graça. Foi então que pedi pra ir com ela a uma corrida.

O treinamento
Antes de responder, ela coçou a cabeça e torceu a boca (ela sempre faz isso quando está em dúvida):
— Você quer correr? Tem certeza?
Balancei a cabeça com a maior firmeza.  Já tenho dez anos. Quando tenho certeza, tenho certeza mesmo.
— Bom... Primeiro, vou procurar uma corrida mais curta, de uns cinco ou seis quilômetros. Aí, você vai ter de treinar um pouco.
“Cinco ou seis quilômetros é curta?! Treinar?” pensei, mas não deixei que ela percebesse meu susto. Eu imaginava que as corridas que ela fazia eram aquelas rapidinhas, tipo 100, 200 metros. E treinar? Para quê treinar? Correr é tão fácil! É só pegar e... Sair correndo! Não aguentei e disse:
— Mãe, eu já sei correr. Você acha que eu preciso mesmo treinar?
Ela deu uma risadinha.
— Miguel, você vai precisar acostumar seu corpo a passar um tempo correndo sem parar. Não é igual a dar uma corridinha quando você está jogando bola. O que você acha que eu faço todos os dias cedinho, antes de vocês acordarem?
Era isso que ela chamava de treino. Nunca tinha me ligado.
Começamos o nosso no fim de semana. Viajamos para o interior e lá, como é mais tranquilo, saímos juntos por uma estradinha de terra.
Larguei em disparada. Ela não acelerou. Veio vindo atrás de mim sem se importar em ser deixada pra trás. Eu olhava por cima do ombro e continuava rápido. Aos poucos, minhas pernas começaram a cansar. Não demorou para que ela me alcançasse. Minha respiração estava ofegante, meu coração parecia que ia sair pela boca, estava todo suado e não tinha mais força pra ir a lugar algum.
— Então...já... deu... cinco... qui...lômetros...? perguntei, ainda tentando recuperar o fôlego.
— Negativo. Não deu nem um quilômetro. Você vai ter de aprender a ir mais devagar.
— Um quilômetro? Nem UM quilômetro? Ir mais devagar? Como eu vou ganhar se for mais devagar?
Ela riu.
— Miguel, é isso mesmo. Mais devagar e você vai conseguir correr muito mais tempo.
Depois daquilo fizemos alguns outros treinos. Sempre que me lembrava, corria em volta de casa. Mas não sabia que distância conseguia percorrer, se havia chegado perto dos 5 quilômetros ou quanto tempo tinha levado.
Então minha mãe me comunicou que havia feito minha inscrição na corrida. Seriam cinco quilômetros, na Cidade Universitária de São Paulo, a USP.

O dia da corrida
 Minha mãe me tirou da cama antes de o sol nascer. Eu estava com muito sono. Tinha custado a dormir porque uma dúvida não saía da minha cabeça: “Será que vou conseguir terminar?”
Vesti shorts, camiseta e um tênis de corrida que minha mãe me deu. Então ela tirou de uma sacola com o nome da corrida, o tal do número de papel e um pequeno objeto plástico e explicou:
— Este é o seu número de peito: 2044 e este, seu chip de cronometragem. Vou colocar em você.
Então ela prendeu com alfinetes o número na frente da minha camiseta e colocou o chip no cadarço do meu tênis. Enquanto ela fazia isso, perguntei:
— Para que serve isso, mãe?
— O chip marca o seu tempo. Quando a gente larga, passa por um tapete onde fica um sensor que lê a informação do seu chip e sabe que você é o número 2044 e se chama Miguel Navarro. No final, tem outra esteira que marca sua chegada. Depois sua classificação aparece no site da corrida. O número de peito é pra os organizadores saberem que você está competindo e te darem água, Gatorade e também para os fotógrafos tirarem fotos suas.
— Classificação? Mas você não disse que todo mundo ganha medalha? Para que serve a classificação?
— Serve pra você saber como foi seu tempo em relação aos outros.
— Ah, então tem 1º, 2º e 3º colocados?
— Tem, sim. Tem até do último que chega!
“Puxa...”, pensei “Será que o último não fica triste em ser o último de CINCO MIL pessoas?”
Tomamos um café da manhã especial. Deixamos meu pai e meus irmãos dormindo e lá fomos nós.
Quanto mais perto chegávamos da USP, mais gente eu via vestida igual a mim e à minha mãe. Eram sete horas da manhã de um domingo e, aquelas pessoas, em vez de ficarem sossegadas dormindo nas suas caminhas quentinhas e confortáveis, andavam apressadas, mas sorridentes. Uma multidão uniformizada. Todos de um mesmo time.

A largada
 Minha mãe conhecia um monte de gente. Me apresentava a todos:
- Este é Miguel, meu filho do meio. Ele vai correr comigo!
As pessoas arregalavam os olhos, me cumprimentavam e desejavam “boa sorte”.  E eu só pensava “vou precisar mesmo!”. 
Quanto mais próximos chegávamos da largada, mais gente tinha e mais borboletas pareciam voar dentro do meu estômago.
Num determinado ponto, minha mãe parou e disse:
— Vamos ficar por aqui se não, na hora que largar, vamos ser atropelados. Ah, espera aí que tenho uma coisa muito importante para você.
Então ela pegou uma espécie de cinto e colocou em volta do meu peito, debaixo da camiseta. Depois tirou o relógio de seu pulso e colocou no meu.
— Isso é um monitor cardíaco e GPS. Além de cronometrar seu tempo e marcar sua velocidade, mostra quantas vezes por minuto o seu coração está batendo.  Assim posso ver se você não está exagerando.
Adorei colocar aquele relógio. Ficou um pouco grande, é verdade. Mas era muito legal ver como meu coração batia e, mais ainda, eu iria poder ver a minha velocidade!
— Agora vamos combinar a estratégia para a prova.
— Estratégia? Não é só correr do começo ao fim?
— Sim, a gente vai correr do começo ao fim. Mas vamos tentar fazer o seguinte: no primeiro quilometro a gente vai bem leve, no segundo, a gente acelera um pouquinho, no terceiro a gente acelera um pouco mais e daí mantém até chegar no último. No último, se você estiver bem, aí pode socar a bota!
— Socar a bota?
— Ir o mais rápido que der, como naquele seu primeiro treino.
Tinha uma coisa que estava me incomodando. Eu precisava perguntar.
— Mãe... e seu eu não... e se eu não aguentar chegar até o fim?  Você vai ficar muito decepcionada comigo?
Ela me olhou muito séria:
— Filho, não tem o menor problema se você não conseguir. Mas tenho certeza de que você vai cruzar a linha de chegada. Se você se cansar, a gente anda um pouco.
— Mas pode andar?
— Pode, pode sim. Fica tranqüilo. Não só você vai terminar, como vai chegar antes de um monte de gente.
Fiquei um pouco mais sossegado. Eu não queria andar. Muito menos ser o último!
Ela pegou a minha mão e apertou forte. Olhou-me e disse:
— Boa prova, filho!
— Boa prova, mãe! — respondi.
Soou a largada. Um som de berrante. As pessoas festejaram gritando e batendo palmas e saíram caminhando sem muita pressa.

Quilômetro 1
Ao passarmos pelo pórtico da largada, minha mãe disparou o cronômetro do relógio de pulso. Ali, todos começavam a correr.
Mesmo que quiséssemos, não conseguiríamos ir muito rápido. Era um mar de gente.
Alguns mais apressados tentavam costurar entre as pessoas, como motoristas nervosos numa estrada cheia. Mas pelo menos pediam licença.
Nós íamos num trotinho que não me cansava.
Depois de sete minutos avistei uma placa onde se lia: 1 km. Já tínhamos traçado o primeiro quilômetro!

Quilômetro 2
Com um “give me five” comemoramos a passagem pela placa. Minha mãe conferiu como estava meu coração e, como tínhamos combinado, aceleramos um pouquinho.
Achei que iria ficar sem fôlego, mas, depois de alguns metros, minha respiração se acostumou com aquele ritmo.
 Nesse momento as borboletas voaram embora do meu estômago. Comecei a olhar em volta e ver que tinha todo o tipo de gente correndo: homens, mulheres, magrelos, gorduchos, altos, baixos, velhos, moços (mas eu era o caçula ali, com certeza), rápidos, lentos.  Alguns conversavam com corredores ao lado, outros iam solitários ouvindo música e, uns poucos, em vez de correr, caminhavam rápido. Mas não tinha um que não estivesse levando a sério aquela corrida.
Olhei para o meu relógio. Estávamos a 9,7 km por hora quando passamos pela placa de 2 km.

Quilômetro 3
Neste quilômetro me animei e comecei a acelerar muito. Minha mãe disse:
— Calma aí! Vamos mais rápido, mas nem tanto. Olha, tenho uma idéia. Está vendo aquele cara ali na frente de boné azul? Vamos ultrapassá-lo! Mas sem correria!
Então miramos no boné azul e lá fomos nós. Conseguimos passar. Minha mãe propôs novamente:
— Agora aquela moça de rabo de cavalo e shorts preto. Vamos?
Depois foi minha vez de sugerir um casal que estava de camiseta igual.
E assim fomos, ganhando de um monte de gente. As pessoas nem percebiam o que a gente estava fazendo, mas, para mim, cada uma dessas ultrapassagens era uma pequena vitória.
No meio deste quilômetro havia um posto de hidratação.
Quando peguei a água de uma das moças que estendia o copinho pros corredores que passavam, ela olhou pra mim e disse para os outros:
— Olha só, gente! Um garoto!
— Aêêê! Parabéns! Vai lá, rapaz, você está muito bem!
E todos bateram palmas enquanto eu tentava manter a corrida e beber água ao mesmo tempo – o que não era muito fácil.
Chegamos à placa de 3km. Comemoramos de novo com um “give me five”. Minha mãe disse:
— Já foi mais da metade. Agora falta pouco!
O relógio marcava 10,1 km por hora.

Quilômetro 4
Nesta parte do percurso os corredores estavam bem mais espalhados e havia espaço para correr. Mas também apareceu uma coisa que não estava no programa: uma subida.
Minha mãe deu as instruções:
— É uma subida pequena, mas é uma subida. Vamos diminuir um pouco o ritmo e vamos dividir em pequenos pedaços.
— Como assim?
— Está vendo aquele poste? Pense que a subida é só até ali.
Quando chegamos ao poste, que era bem pertinho, ela disse:
— Muito bom! Agora, aquela caçamba de lixo!
E lá fomos nós. Cada trechinho tinha uns dez metros e comemorávamos cada chegada.
Quando chegamos ao topo, ela disse:
— Agora pode soltar o freio, que é só descida!
Que delícia! Aceleramos e chegamos até mais um posto de hidratação.  Peguei um copinho, tomei um gole, sem parar de correr e, imitando minha mãe, joguei um pouquinho na cabeça pra refrescar.
Aumentei minha velocidade. O relógio marcava 10,6 quilômetros por hora.
— Ainda falta um quilômetro e meio - disse minha mãe, - você está bem mesmo? Então vamos assim, neste ritmo mais forte.
Começamos a ultrapassar várias pessoas. Muitas exclamavam:
— Olha só esse garoto! Ta mandando bem, hein?  Parabéns!
Comecei a me sentir cada vez melhor, embora já tivesse corrido quase quatro quilômetros. Nem parecia. “Queria que meu pai e meus irmãos vissem isso...” pensei “Eles se orgulhariam de mim!” Na hora em que pensava isso, vi a placa do km 4.

O último quilômetro
Era hora do tudo ou nada.  O olhar da minha mãe me disse: “Vamos nessa!”
E fomos com tudo.
Minhas pernas me levavam.  Meus braços abriam o espaço que estava à nossa frente, meu coração pulsava rápido, minha respiração martelava junto com a batida dos meus pés no chão, minha cabeça estava vazia. Eu não via, mas percebia a presença de minha mãe ali ao lado.
Então avistei o pórtico de chegada.

A chegada
Um pouco antes de cruzarmos a linha de chegada a pista se estreitava, formando uma espécie de funil. Ali, ficava a torcida, aplaudindo todos que chegavam.
Quando entramos neste funil as pessoas aplaudiram muito, assobiaram, gritaram. Tive até a impressão de ouvir meu nome, mas eu não conseguia olhar para os lados — estava totalmente concentrado em chegar ao fim. Minha mãe segurou minha mão para passarmos o pórtico.
Uma alegria imensa tomou conta do meu corpo. E me senti forte como nunca tinha me sentido na vida.
Atravessamos a linha de chegada juntos. Então me soltei de minha mãe e ainda tive forças pra saltar e dar um soco no ar gritando “Yessssss!”
Minha mãe me abraçou forte. Seus olhos estavam molhados.  Voltei a enxergar e ouvir o que estava à nossa volta.
— Mamãe! Miguel! Mamãe! Miguel! Aqui! Aqui!
Meu pai e meus três irmãos estavam lá e faziam a maior gritaria. Corremos até eles e fizemos a maior festa.  Mas eles estavam de um lado da grade, e nós, do outro.
Para sair dali era preciso devolver o chip e...  Pegar a medalha!
Tirei o chip e ganhei a medalha mais linda do mundo.
Ganhamos também uma camiseta de “finisher” (só pra quem termina a prova) e um lanchinho.

O último colocado
Saímos da confusão e encontramos a família. Como o dia estava bonito e meu pai achava que se saíssemos àquela hora pegaríamos muito trânsito, ficamos por ali mesmo, conversando. Eu queria contar tudo para os meus irmãos!
O tempo foi passando, o número de pessoas diminuindo e os corredores iam chegando aos poucos. Até uma hora que parecia não haver mais ninguém. Os organizadores começavam a se movimentar para desmontar as grades, tirar os tapetes... Mas havia uma família ali. Uma mulher mais velha, dois casais de adultos e algumas crianças que brincavam por perto.
A senhora mais idosa parecia tentar enxergar ao longe, as outras, mais moças, roíam as unhas e torciam as mãos. Mas aí ele apareceu. O último colocado. Ele vinha correndo num ritmo arrastado, quase parando. Então ele viu sua família. Seu peito se encheu de ar, seu passo ganhou firmeza, ele acelerou e veio com suas últimas forças. A família gritava “Vai vovô! Vai papai!”. Então pularam a grade e encontraram com seu campeão bem na linha de chegada.


“Ele chegou em último lugar, eu não cheguei em primeiro” pensei, “mas acho que nós dois somos campeões!”. E foi aí que entendi o valor daquelas medalhas.