terça-feira, 5 de maio de 2015

Coisas estranhas

Na minha casa acontecem coisas estranhas.
Sapatos andam sozinhos. No caminho, largam as meias. Casacos saem do armário para passear e costumam postar-se no sofá em frente à TV . As toalhas banham-se e vão tirar um cochilo sobre os lençóis da cama.
Mochilas pulam para o chão e vomitam seu conteúdo.
O telefone sem fio se esconde.
As pastas de dentem se abrem. Xampus transbordam. Papel higiênico gira e se desenrola até encostar-se ao chão.
A s garrafas de água (as duas!) esvaziam-se sem que ninguém beba.
Copos, potes, pratinhos espalham-se pela casa, ligeiramente sujos.
Bananas descascam-se e puf! Desaparecem no ar sem deixar vestígios – ou melhor, deixando. Uvas fogem da geladeira e abandonam seus cachos gelando.
As luzes se acendem. As portas se destrancam.
De vez em quando, uma louça se suicida. De repente, todas, todas as canetas decidem fugir sem ao menos escrever um bilhete.
Coisas estranhas acontecem na minha casa. Será só na
minha?

SOS Sumaca

SOS SUMACA
O Parque Zilda Natel – carinhosamente apelidado de Sumaca por seus frequentadores, sempre foi um exemplo de espaço público na melhor acepção: um lugar de todos, para todos. Era um terreno baldio, abandonado desde a construção da estação Sumaré, que graças à brilhante ideia de Stela Goldenstein e sua equipe da Secretaria de Meio Ambiente do município, foi transformado numa área de lazer para crianças, jovens e adultos no começo de 2009.
A maior parte é ocupada por três pistas de skate: uma street, com rampas e corrimãos; um bowl e um half pipe. O projeto das pistas teve participação de membros da Confederação Brasileira de Skate. Mas não é só de skate que vive a Sumaca. Há também uma quadra de streetball, aparelhos de ginástica, mesas com tabuleiros pintados. Conta também com uma pequena arquibancada, bancos, bebedouros e banheiros.
Durante bastante tempo acompanhei meus filhos ali e sempre achei um dos locais mais democráticos que já frequentei. Crianças grandes, médias e pequenas, com seus pais, dividiam os diferentes espaços com jovens, adultos e até idosos. Pobres, ricos e remediados; branquinhos loirinhos de tênis novos e reluzentes aprendiam novas manobras com morenos, rastas ou com outros loirinhos, de tênis emendados com silver tape. E vice-versa. Veteranos do skate aguardavam pacientemente enquanto meninos recém-saídos das fraldas desciam as rampas de mãos dadas com seus pais ou mães. Na aparente confusão das pistas sempre houve um convívio pacifico, respeito, solidariedade, tolerância. Muitas amizades nasceram ali.
O uso do capacete era obrigatório (para minha tranquilidade) e, no início, até havia capacetes disponíveis para empréstimo. As regras, como esta do uso de capacetes e da proibição de animais, por exemplo, estavam afixadas de modo visível.
Havia uma empresa de segurança tercerizada abria e fechava o parque, zelava pela segurança e tinha um ótimo relacionamento com os frequentadores. O cuidado era compartilhado. Quando a pista começava a ficar com defeitos, alguns skatistas se organizavam para fazer reparos. Quando chovia, eles ajudavam com rodos a empurrar a água pra fora da pista. A parceria entre os frequentadores e os guardas, salvo uma ou outra desonrosa exceção, funcionava bem.
Não havia drogas. Nunca houve assaltos.
Mas de um tempo pra cá, a Sumaca está sendo abandonada. O contrato com a empresa de vigilância terminou e não foi feito outro. Não há segurança. Já aconteceu um assalto. A iluminação (que a bem da verdade nunca foi um primor) precisa de uma urgente troca de lâmpadas, prometida há meses. De vez em quando, alguém acende um baseado e, embora seja repreendido pelos próprios frequentadores, este clima inseguro afasta o público mais família que acaba tornando o clima ainda mais inseguro. E ninguém mais se importa com os capacetes.
Foi criado um conselho gestor que tem brigado para que o poder público cumpra sua parte: pela poda das árvores que encobrem a iluminação, pelo material para manutenção da pista (que eles, skatistas, fazem) e até pela água que tem faltado nos bebedouros. Os esforços são imensos e os resultados, quando aparecem, demoram. Eles precisam ser ouvidos, eles precisam de apoio.
Como cidadã, vou fazer tudo que estiver ao meu alcance. Além de participar da reunião do conselho vou também botar a boca no trombone. Começo por aqui. E conto com a ajuda de todos – skatistas, pais de skatistas ou cidadãos – para garantir que um espaço como o da Sumaca, que ensina na prática o que é cidadania, seja cuidado como ele merece.

Dilema

Precisava comprar um guarda-chuva para o Martim, que agora vai de ônibus para escola e percorre um trecho a pé. Não que ande chovendo muito, mas diz a Lei de Murphy que a chance de cair um pé d’água aumenta significativamente quando você não pode chegar ensopado à aula.
Então, na hora do almoço, passei no carrinho do homem do alho que ampliou seus negócios e agora vende também sombrinhas e guarda-chuvas. Ele deve ter seus sessenta anos, mas aparenta mais. Pele enrugada e queimada de sol, cabelos curtos e brancos, sorriso amplo e desdentado, ele exibe os diferentes modelos, explica as funcionalidades e informa os valores que, bem sei, podem ser facilmente regateados.
Escolho um modelo, pergunto o preço. Lembro então que estou sem dinheiro. Ele não aceita cartão. Decido ir almoçar, tirar dinheiro e passar na volta.
Entro na galeria do Copan. Há uma lojinha de quinquilharias que já me salvou em várias circunstâncias. Tem de um tudo: de fones de ouvido a adesivos de parede importados, de baterias a lenços de seda e móbiles. E guarda-chuvas.
As donas, duas moças, são sempre simpáticas e atenciosas. Aceitam cartão. Parcelam. Elas têm o mesmo modelo de guarda-chuva que escolhi no carrinho do homem do alho. Idêntico. Mesma marca. Mas elas cobram 30% mais caro. Alegam que o dele deve ser falsificado. Não é. Ninguém gasta energia falsificando guarda-chuva. Até onde eu sei, guarda-chuva não tem grife.
Estou com fome. Então deixo para decidir depois de comer.
De um lado, o homem do alho, com sua idade, a família que deve ter para sustentar, a falta de perspectiva e seu carrinho repleto de alhos e guarda-chuvas.
De outro, as mocinhas das quinquilharias, que pagam aluguel, luz, impostos e taxas dos cartões, investem no seu pequeno negócio, que deve sustentar seus filhos pequenos ou seus pais idosos.
Diante disso, de quem eu deveria comprar?

Acolhida

ACOLHIDA
Eram os últimos dias de 93 e eu nem trinta anos tinha. Grávida do Theo, meu primeiro filho, decidi passar férias em Jericoacoara, na pousada de um casal de amigos. Solteira, quem me acompanhou na aventura foi a Paula, que viria a ser a dinda do primogênito e que já tinha sido minha parceira numa outra viagem estilo “Thelma e Louise”.
Chegar a Jeri era uma verdadeira odisseia. Além de algumas horas de voo noturno e pinga-pinga até Fortaleza pousaríamos pela manhã e só pegaríamos o ônibus até Jijoca à noite. Viajaríamos 6 horas neste ônibus – que também iria parando ao longo do caminho – com as bagagens nos pés pois nos haviam dito para não deixar no bagageiro sob o risco de serem roubadas. Chegando em Jijoca, enfrentaríamos a última etapa: de jardineira, por uma esburacada estrada de terra e areia. Roteiro adequado para uma gestante de 5 meses.
Havia um problema de timing em nosso cronograma. Da chegada ao aeroporto em Fortaleza até a saída do ônibus para Jijoca teríamos praticamente o dia inteiro. O que fazer com esse tempo todo disponível? Onde ir? O que fazer com as malas?
Uma amiga bem mais velha, sabendo das nossas dificuldades, ofereceu: voces querem que eu fale com o Zé? Ele é de Fortaleza. Vocês poderiam deixar as bagagens na casa dele, passar o dia na praia e ao final da tarde vocês voltam, tomam banho e daí vão pra rodoviária.
O Zé era o amante dela. Que era casado. Quem nos receberia seria a esposa dele, já que ele estava temporariamente morando em Sao Paulo. E, óbvio, ela não sabia que ele tinha uma amante. Achei aquilo meio esquisito. "Como ele vai explicar pra ela quem nós somos? Não vai dar confusão?" "Podem ficar tranquilas," ela garantiu, "ele vai dizer que vocês são sobrinhas de uma colega de trabalho". O problema, inesperado, não foi por isso.
Ficou tudo combinado. Pegamos o endereço e, na data marcada, entre Natal e Reveillon, lá aparecemos, de malas, cuias e barriga de gestante.
Joana, a esposa inocente, nos recebeu muito bem. Tomamos um lanche, trocamos as roupas por biquinis e cangas, os sapatos por chinelos, deixamos as malas num dos quartos e fomos pra praia de chinelo e sacolinha.
Estava quente e ensolarado como se poderia esperar de um dia de verão no nordeste. Passamos o dia na praia, entre águas de cocos e águas do mar. Bronzeadas e cheias de areia voltamos para nossa base de apoio quando já começava a escurecer.
Ao dobrarmos a rua, vimos uma grande movimentação. Muitos carros estacionados, gente parada no portão da casa conversando em pequenos grupos. Nos entreolhamos. Será que havia uma festa na casa e Joana não havia nos comunicado?
Quando nos aproximarmos, entretanto, percebemos que as feições estavam tensas, as vozes sussurrantes, as roupas escuras e formais. E nós de canga, biquini e chinelo.
Constrangidas, pedimos licença e entramos. Dentro da casa, o clima era ainda pior. Pessoas choravam, abraçadas. Para a nossa sorte, encontramos a empregada que havia nos recebido junto com Joana pela manhã e perguntamos o que estava acontecendo. "Vocês não sabem?"
Não, não tínhamos a menor ideia. Mas era grave. "Carlos, o irmão de dona Joana, a esposa e o filho mais velho sofreram um acidente de carro hoje. Todos morreram".
Não soubemos o que dizer. Quando tentamos entrar no quarto onde estavam nossas malas, ao entreabrir a porta vimos uma moça soluçando na cama. Ao lado de nossa bagagem. Recuamos. E agora?
Ficamos paradas na porta do quarto sem saber o que fazer. De canga, biquini e chinelo.
No momento em que percebemos que o choro diminuiu de intensidade, entramos silenciosamente, pegamos nossas coisas e nos retiramos.
Entramos no banheiro, trocamos de roupa sem tomar banho (pois não queríamos interditar o banheiro por muito tempo e nem pedir toalhas pra ninguém). Fomos embora rumo a rodoviária, cheias de sal, areia e sem nos despedir da nossa anfitriã.
Nunca mais a vi, nunca tive oportunidade de me desculpar ou agradecer.
Então, Joana, obrigada pela acolhida. 

Tinha dezesseis

e estava acampada em Trindade, com meu namorado - o Índio, quase seis anos mais velho que eu.
Aos dezesseis, a vida é uma série de grandes novidades. Quase tão fantásticas quanto aquelas – creio eu, mas não me recordo – com as quais nos defrontamos quando, lá pelo primeiro ano de vida, começamos a andar: o ângulo de visão de mundo se altera, achamos que podemos ir aonde bem entendemos sem dar maiores explicações aos nossos pais, corremos riscos, damos cabeçadas, queremos explorar caminhos, encontrar novas paisagens.
Então lá estava eu, passando um mês de férias com meu namorado, sem pai nem mãe, acampada em Trindade, no final da década de 70.
Pés descalços, cabelos despenteados, pele curtida pelo sol e temperada com o óleo de coco Bahia, muito PF de ovo na casa do seu Antônio e da dona Clara, banhos de cachoeira... O que mais uma adolescente poderia querer?
E havia o amor. Índio era tudo que uma teenager poderia sonhar – forte, cabelos longos, cara de mau que se dissolvia em um sorriso maroto, baterista de uma banda de rock, MUITO mais velho que eu (quase seis anos é uma diferença enorme nesta época da vida) e – a cereja do bolo – ele me amava. E eu amava muito tudo isso.
Entretanto, (há sempre um “entretanto”) ele era ciumento.
Naquela tarde, depois de um dia intenso de amor, caminhadas e mar, quando estávamos tomando nosso banho de cachoeira, decidi ficar topless – eu era moderninha e estávamos na década de 70, for god’s sake! Mas eis que um grupo de moços resolve aparecer bem nessa hora. E olhar para os meus peitinhos.
Pronto. Índio não disse uma palavra, mas o tempo fechou. Não aquela tempestade de raios e trovões. Não. O clima ficou, abafado, tenso na iminência de cair o mundo.
Fomos pro boteco da Praia do Meio, tomar uma cerveja ao final da tarde, antes de voltarmos pra praia do Cepilho, onde estávamos instalados. Ele mal falava comigo. Engatou numa conversa com os caiçaras, me deixando sozinha no balcão.
E então pedi uma pinga. Depois outra. Depois mais outra. E, talvez, mais outra. Não lembro. Mas lembro, que lá pelas tantas, sentindo-me abandonada e entorpecida, decidi voltar sozinha para o aconchego da nossa barraca.
Saí sem dizer nada e sem que ele visse. Fui, aos trancos e barrancos, pela estrada esburacada, enquanto a noite caia.
Ao chegar lá, já noite fechada, tive uma brilhante ideia. “Vou fazer um macarrão pra ele”, pensei, “ele vai estar chateado e com fome e vai ficar muito feliz em encontrar uma macarronada pronta”.
Peguei a panela, acendi uma vela depois de gastar meia caixa de fósforos e me dirigi até a bica, ao lado da casa do seu Antônio e da Dona Clara. Enchi a panela de água, voltei para barraca, coloquei em cima do fogareiro mas, quando fui tentar acender o fogo, derrubei a panela, derramando toda a água.
Ainda assim, resolvi tentar mais uma vez. Munida de vela e panela, voltei à bica, enchi de novo e comecei meu caminho de volta. Não era um caminho longo em absoluto. A praia toda deve ter uns cem metros. E o meu percurso deveria ter uns cinquenta. Mas eu já havia andando muito, e havia bebido um tanto. Então, simplesmente desisti. Enterrei a vela ao meu lado, me livrei da panela, deitei na areia e, como se ali fosse a mais confortável das camas, caí no sono.
Algum tempo depois, Índio, que também havia tomado umas e outras e, àquelas alturas já estava arrependido do tratamento que havia me dispensado, chegou ao Cepilho e se deparou comigo apagada no meio da praia.
Aproximou-se, chamou, me sacudiu e diante de minha total falta de reação começou a me dar uns tapas.
Os filhos de seu Antônio e dona Clara, que estavam vendo a cena de longe, puseram-se a gritar: “O Índio ta matando a Claudia! O Índio ta matando a Claudia!”. Neste ponto, o Banzé que era um amigo nosso que também estava acampado ali, ouviu a gritaria e foi ver o que estava acontecendo.
Banzé, então, se depara com a seguinte cena: eu deitada na areia, desacordada, Índio, debruçado na minha barriga chorando e pedindo perdão, ao nosso lado uma vela acesa.
Ele corre até nós é começa a gritar: “Índio! O que você fez com ela?! O que você fez com ela?!” Este, soluçando, responde: “eu tive que fazer! Eu tive que fazer!”
A Bela Adormecida então desperta, com cara de que não sabe onde está nem como chama. “Ahn?!”
Banzé, pra ele: você não deveria ter feito isso com ela, seu idiota!
E pra mim: Mas você merecia apanhar, sua tonta!
O show estava completo. Seu Antônio, dona Clara, seus dez filhos, agregados e outros campistas, assistiam ao espetáculo e, quando Índio me pegou no colo e me aninhei em seus abraços, recebemos uma salva de palmas e assobios.
Não, não fomos felizes para sempre. Mas fomos felizes até final daquele verão.

(Para Silvana Augusto, que não gosta de ler textos longos no Facebook)

Na Caixinha

Demissão homologada, fui sacar o Fundo de Garantia na agência da Caixa mais próxima.
Caminho até a Domingos de Morais, entro na agência, retiro a senha no totem e aguardo. O local está vazio e rapidamente sou atendida. Que bom, penso. Vai ser rápido.
Então, o tipo que me atende, pega os papéis, olha pra mim. Olha os papéis de novo. Clica seu mouse, olha o computador. E me devolve os papéis. “Lamento”. Olho sem entender. “Não tenho alçada para isso”. Continuo olhando. Ele explica: “É o valor. Você trabalhou muitos anos?” Aceno que sim. “Então. O computador não autoriza. Você vai ter de ir lá em cima. Falar com a Ivone ou com a Edileusa”. E arremata “se a minha autoestima dependesse do que este sistema me autoriza, eu já estaria em depressão. Volte ali no totem e pegue uma nova senha. Mas deve ser rápido.”
Faço o que ele diz. De posse do novo número, subo. Ivone e Edileusa estão ocupadas. Aguardo. Mas, como já é hora do almoço, Ivone sai e quem me atende é sua assistente, Débora, que não deve ter mais que 22 anos.
Sorri seu sorriso Caixa. Pega meus papéis. Ergue a sobrancelha. “Veio resgatar seu Fundo?” Aceno positivamente. “Não quer aproveitar e abrir uma conta aqui na Caixa?” “Não, obrigada” – respondo educada, mas categórica. Seu sorriso Caixa desaparece.
Ela se concentra nos papéis que lhe entreguei.
Ergue a cabeça e aponta, veemente, para um dos campos do termo de rescisão de contrato. “Aqui”, diz triunfante, “falta a Unidade da Federação – SP, está vendo?! E aqui também, estes dois campos, estão sem preencher. Tinha que estar escrito ‘zero’”.
Olho para ela ainda sem entender o que está acontecendo. “Como assim?” É só o que consigo dizer.
“Você vai ter que voltar na empresa e eles vão ter de escrever uma observação neste documento. Aí você volta aqui.”
“Você está dizendo que não posso transferir meu fundo por causa disso? Acabei de homologar, está tudo certo, conferido. Que importância tem isso? Dois zeros?? E a unidade da federação, que, por sinal, tem outro campo em que isso está escrito!?”
“Para a Caixa é muito importante. Você não pode sacar sem isso. Tem que fazer a retificação.” Ela está vingada.
Ligo pro Carlão, do RH, na frente dela. Ele não acredita. “Funcionária da Caixa”, bufa ele “é assim, encasquetou. Tenta em outra agência. Se não der, mando recolher o formulário na sua casa.”
Fico exasperada. Tirei o dia pra resolver este assunto e não vou conseguir. No dia seguinte, estarei fora de São Paulo.
Encaro a menina “È sério mesmo? Você vai criar caso por causa disso?”. Ela não responde.
Arranco os papéis das mãos dela e desço a escada pisando forte.
Não sei o que fazer. Estou com fome. Irritada. Vou caminhando em direção ao metrô. Antes de descer as escadas, decido perguntar se há uma agência da Caixa por ali.
Há. Dobrando a esquina. Respiro fundo e entro.
No totem, aviso o moço que se trata do FGTS mas precisa ser com alguém da gerência. Ganho uma senha e dois nomes: Paloma e Suzana.
“Desta vez”, penso, “não vou aceitar outra qualquer”.
Subo a escada e pergunto por elas. Paloma está disponível. É uma menina. Mas tem um sorriso. Um sorriso que não é da Caixa.
Ela me diz pra sentar. Estendo meus papéis pra ela. “Você que vai resolver meus problemas?” “Claro! Que problemas?” “Preciso resgatar este Fundo hoje. Tem jeito?” “Tem, lógico”. E ela vai passando os olhos naquele mesmo formulário e conferindo os dados relevantes com meus documentos.
“Você não vai aplicar pelo menos uma parte?” ela pergunta. “Vou sim”. “Já sabe em quê?” “Uma parte quero deixar em algum rendimento de médio prazo e uma parte tem de ser daqueles com baixa automática”.
E então, com simpatia, tato e uma planilha com as porcentagens dos rendimentos, ela me oferece a opção do seu banco. E eu decido então aceitar sua proposta e deixar a maior parte do dinheiro com ela.
No mais conversamos sobre a faculdade que ela está fazendo – administração – e seu sonho – veterinária. E sobre vir para São Paulo e viver sozinha e sobre e correr e sobre ter lesões e namorados. Ela só tem 22 anos. Provavelmente a mesma idade da outra (como ela chamava mesmo?). Enquanto isso, ela libera meu Fundo, faz a transferência, abre a conta para a aplicação, me mostra como funciona o site. Tudo isso leva uns 40 minutos.
Despedimo-nos como velhas amigas.
Vou caminhando em direção ao metro. Então, me lembro de Julia Roberts e estico a caminhada de volta até a primeira agência.
Subo até o primeiro andar. E a moça do sorriso caixinha está atendendo um jovem.
Estico os dois papéis na frente do seu nariz: o formulário rejeitado e o comprovante dos meus títulos de investimento recém adquiridos.
“Big mistake... huge...” digo, sorrio e saio requebrando escada abaixo
.

Pai


Não me lembro de meu pai sem barba. Em algumas de minhas primeiras fotos, ainda bebê, há um rapazote imberbe e magriça que dizem ser meu pai. Duvido um pouco. Meu pai nasceu barbado. Não uma barba qualquer, desgrenhada. Uma barba rente, comportada, simétrica. Uma barba confiável. Meu pai é – e sempre foi – a pessoa mais confiável que conheço. Ele nasceu com sistema GPS – muito antes disso existir. Em qualquer lugar do mundo pega o carro e sabe chegar ao hotel, à casa do amigo, àquele pequeno restaurante escondido no meio das montanhas. Ele sabe. Ele sempre soube.
Até hoje, nunca bateu o carro. Nunca foi multado. Nunca molhou a mão de ninguém. Nunca sonegou impostos. Nunca escolheu atalhos, facilidades ou gambiarras. Pagou o preço de suas escolhas.
Não trocou minhas fraldas, nem deu mamadeira. Mas me ensinou a jogar vôlei, brincar de beisebol, andar de bicicleta. Ele nos levou, a mim e minha irmã Silvia, no estacionamento da Faculdade de Saúde Pública da USP, ali na dr. Arnaldo, tirou as rodinhas nos empurrou, uma de cada vez, até que nos sentíssemos seguras e equilibradas – então nos deixava pedalando por conta própria.
A gente velejava. Carregava a vela o mastro o leme e a bulina até a beira da represa e aprendia como encher a vela com o vento em popa e a voltar pra casa, mesmo com o vento contra. E a ouvir o barulhinho que água fazia ao ser singrada por nosso pequeno Starfish. E a se incomodar com os motores poluentes das lanchas.
Entrei na escola já alfabetizada porque ele me ensinou a ler. Pacientemente, com a pata nada.
Tirou fotos fotos e mais fotos toda nossa infância. Tínhamos um quarto escuro no fundo da casa, cheirando a revelador. Lá víamos a transformação do momento em papel. As luzes e sombras aparecendo lentamente dentro daquela bandeja rasa sob a luz amarelada e depois as imagens eram mergulhadas novamente noutra bandeja que as fixava para sempre àquele papel e então eram penduradas naquele mini varal, em versões mais luminosas e outras mais sombrias. Éramos nós naquelas imagens e a entrada naquele quartinho para assistir às revelações era um prêmio. Algum de nós teria mesmo de virar fotógrafa.
E colado à câmara escura, o quartinho. Com as ferramentas e os parafusos e porcas e preguinhos e pregões separados por tamanho tipo finalidade. E ele sempre sabia (sabe até hoje) quando a gente tinha tirado alguma coisa de seu posto.
A gente cresceu e não quis mais que ele tirasse fotos – ou melhor, quis que ele achasse que a gente não queria – mas a gente continuava gostando do olhar dele sobre a gente. Mas ele acreditou e tirou cada vez menos fotos.
Nos transformamos naqueles estranhos seres de 14, 15, 16, 17 e 18 anos. Mesmo assim, ele jogou vôlei com nossos amigos e deixou que usássemos o veleiro e tolerou os namorados cabeludos e maconheiros. Não. Não tolerou apenas. Aceitou. Levou pra Ibiúna e pra João Pessoa.
E eu fui indo pra longe dele. Muito longe. Até o dia em que quebrei. Acabei com o carro na praça 14 Bis, e ele, convalescente de uma cirurgia, saiu de casa no meio de uma fria madrugada de inverno e foi me buscar. Não disse uma palavra.
E no dia seguinte não aguentei ter feito o que fiz, e fiz ainda pior. Quase morri. Idiota. Agora eu sei. Idiota.
Mas não é sobre mim, é sobre ele. Que teve de lidar com a filha que caiu no fundo do poço. Aos dezenove anos, foi dormir no quarto dos pais. Por que era o único lugar seguro.
Um pouco mais tarde, em Londres, ele me visitou. E voltou a tirar fotos. E contou de si. E esteve tão perto, tão perto, que tive saudades antes de ele ir embora, porque sabia que aquele encontro era um reencontro e um novo encontro.
A vida adulta chegou e foi-se impondo. Ele ficou lá, como no dia em que nos ensinou a andar de bicicleta – empurrando, incentivando, ajudando a encontrar o ponto de equilíbrio para nos soltar.
Não paro de aprender com ele. Quando minha carreira foi me levando pra gestão, nosso rol de assuntos em comum se ampliou.
Ele admira minhas façanhas esportivas. Orgulha-se de meus feitos acadêmicos. Incentiva. Vibra. Faz perguntas. Conta pros amigos.
Gosto do olhar dele – com lentes ou sem lentes – sobre mim.
Admiro a incrível disposição que ele tem de ajudar minhas irmãs organizar suas vidas. Sem invadir, sem palpitar – colocando cada parafuso no lugar mais funcional, a chave de fenda no lugar mais acessível.
E a barba foi ficando cada vez mais branca. Totalmente branca. Continua rente, comportada, simétrica. Mas agora é mais aconchegante.

Obrigada, pai, por me deixar ser filha.